Samba Noir

“Samba noir” é um filme de corpo presente, com loura fatal e tudo, ambientado entre a Mangueira e a Lapa. O coletivo no palco, as participações projetadas, a fina escolha de repertório, tudo faz sentido. E como isso é raro hoje em dia...
Arthur Dapieve

Samba Noir não é um show pra ser fotografado.
Não é pra ser filmado.
Não é pra ser escutado.
Samba Noir é pra ser experimentado.
Philippe Leon Anastassakis

Saí de casa pra assistir ao espetáculo SAMBA NOIR, com a certeza de que seria um programa bonito. Mas que delícia estar enganada. Foi bem mais que isso, um banho de música, de conceito, de imagens, de participações feitas de maneira completamente original. Um oásis, um alívio…"se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí", atrás desse som, desse jeito, dessa onda...
Zélia Duncan

"Em Samba Noir, Katia B e seus cúmplices musicais nos surpreendem domando com elegância e criatividade desconcertantes, o apelo visceral das canções de fossa, de dor de cotovelo, transformando o canto das paixões dilacerantes num cinema musical ( o palco a cada música é tomado por projeções ) que nos envolve, hipnotiza e leva para um passeio inusitado (diria inédito) por obras primas da escuridão amorosa que, tocadas pela personalidade de Katia B, ao invés de nos afundarem, fazem com que levitemos concentrados na dor dos desencontros passionais. Muito inédito. Podem crer."
Fausto Fawcett

Samba Noir

Samba Noir (2015)

  • 1 Chove lá fora
  • 2 Imitação
  • 3 Meu mundo é hoje (part. Arto Lindsay)
  • 4 Ninguém me ama
  • 5 Tão só
  • 6 Aves daninhas
  • 7 Risque (part. Egberto Gismonti)
  • 8 Pra que mentir? (part. Carlos Malta)
  • 9 Só deixo meu coração na mão de quem pode
  • 10 Volta (part. Jards Macalé)

Aves daninhas

Luz Negra

Imitação

clique na foto para ampliar

A conexão eletroacústica do Samba Noir, por Tárik de Souza

Samba Noir, por Antonio Saraiva

A CONEXÃO ELETROACÚSTICA DO COLETIVO SAMBA NOIR
por Tárik de Souza

Desde que o samba é samba sua índole é mutante. A começar pelo fundador “Pelo telefone”, assinado por Ernesto dos Santos, o Donga (com Mauro de Almeida), há quase cem anos, unindo fios do maxixe e de cadencias rurais num amálgama precursor da urbanidade. A resiliência de um gênero tão central se comprova exatamente pela capacidade de abrigar novos afluentes, como um delta em permanente processo de expansão.

Formado por expoentes em ramais diversos, a cantora, atriz e dançarina Katia B, de largo percurso entre o pop e a MPB, o violonista, arranjador e produtor Luís Filipe de Lima, ligado ao samba e o choro, o percussionista Marcos Suzano, inovador no uso do pandeiro e da percussão eletrônica, e Guilherme Gê, arranjador, produtor e multinstrumentista, o Coletivo Samba Noir desloca certezas e quebra tabus. A partir da ideia inicial de fazer um projeto em conjunto e com o patrocínio da Petrobras Cultural, Luís Filipe e Katia elegeram como tema “o samba de fossa, o samba canção” e outros espécimes de mesma linhagem poética. “A brincadeira era vestir esse repertório de maneira arrojada, pouco convencional, trazendo para o novo trabalho a experiência de Katia com as sonoridades eletrônicas, mas fazendo-as dialogar com o violão de sete cordas, que remete ao regional de choro e às serestas”, decupa Luís Filipe. “Queríamos criar uma sonoridade que valorizasse a densidade das letras das canções escolhidas, através de texturas e camadas de sons envolventes, hipnóticos, escuros”, explicita Katia. “Surgiu assim o conceito de samba noir, fundamentado nesse contraponto e inspirado na atmosfera do cabaré, do piano bar, do inferninho, do botequim castiço, todos palcos nobres do cancioneiro de fossa”, situa Luís Filipe.

Parceiro de Katia em trabalhos anteriores, Marcos Suzano foi convocado e trouxe com ele Guilherme Gê. “Descobrimos o som do quarteto de maneira orgânica, mas ao mesmo tempo ágil, sem nos deter em modelos ou referências, apenas somando as sugestões de cada um, tentando encontrar o ponto certo de equilíbrio”, concatena Luís Filipe. “A conciliação das partes eletrônica e acústica deu-se naturalmente, a partir da bagagem de cada um. Existe um diálogo entre o violão de 7 cordas e o bass synth, são freqüências que se complementam, assim como a percussão conversa com os samples e efeitos”, descreve Guilherme. Suzano complementa: “o baixo synth de Guilherme, junto com seus timbres de efeitos de pads combinaram muito bem com os graves e outros sons e ritmos que eu gerei, liberando o violão de sete para trabalhar numa freqüência bem distinta da nossa. Também a questão de não haver overdubs cria este estilo ‘vazio’, mas com mais espaço para o som soar ‘grande’”.

O mergulho nas canções de fossa dos anos 50, em sua maioria, além da questão poética, também foi uma escolha musical, como detalha Katia. “Elas permitem arranjos com andamentos mais lentos, que oferecem espaço para densidade. Posso buscar imagens cinematográficas para criar personagens que cantam suas pequenas histórias. Sempre me interessei por temas que convidam o ouvinte a uma viagem interior, geralmente com tonalidade menor e andamento mais lento”.

Nada disso quer dizer ortodoxia, pelo contrário. Aos exemplos. Convulsionado por voz e guitarra de um dos convidados do Coletivo, Arto Lindsay, o libelo “Meu mundo é hoje” (“tenho pena daqueles que se agacham até o chão/ enganando a si mesmos, por dinheiro ou posição”), de Wilson Batista (com José Batista) deságua num “jongo alujá”, como define Luís Filipe. Um “opanijé estilizado” eriçou a devastação amorosa de “Ninguém me ama” (Antonio Maria/ Fernando Lobo). E “uma espécie de milonga árabe” infiltrou-se no clássico de Ary Barroso, “Risque”, adornado pelo intenso piano de Egberto Gismonti, outro conviva ilustre. Valsa desolada de Tito Madi, “Chove lá fora”, já havia sido incorporada pelo universo do samba canção, e no disco, aproxima-se de uma eletrobossa. “Me lembra um pouco o processo de diluição infinitesimal da homeopatia”, compara Luís Filipe. “Mesmo quando não há mais qualquer resquício de samba no nosso som, sua matriz energética continua de algum modo preservada”.

Cantor com Katia da rara e levemente embolerada “Tão só”, de Dorival Caymmi e Carlos Guinle, Guilherme Gê acentua a preocupação de “fugir ao lugar comum” nos vocais. Duas faixas citadas por ele como inoculadas de “intervalos não convencionais” são a corrente giratória engastada em “Aves daninhas” (Lupicínio Rodrigues) e a única autoral, “Só deixo o meu coração na mão de quem pode” (Katia B/ Fausto Fawcett/ Plínio Gomes/ Marcos Cunha), de canto falado cerzido pelo violão 7 cordas, eletrônica e guitarra levemente esgarçada. “Houve um cuidado para que o espectro de freqüências estivesse bem amplo e definido, e a voz de Katia fecha esse circuito”, disseca Suzano. “Voz lisa, região muito agradável, dentro da base, como mais um instrumento. Todos sofreram algum tipo de processamento por efeitos, como filtros de freqüência, delays, para compor melhor o ambiente ‘noir’” adiciona ele. E Katia detalha: “O conceito não é o da cantora com acompanhamento dos músicos. Ainda que me arriscando como intérprete, tudo aqui quer fluir junto, num som próprio, particular e único”.

O naturalmente nebuloso Noel Rosa de “Pra que mentir” (com Vadico) flutua sob elucidativos comentários de flauta, clarone e sax barítono, soprados por Carlos Malta - mais um astro convidado. E o outro petardo de Lupicínio Rodrigues escalado, “Volta” conjuga a seda vocal de Katia com a aspereza de Jards Macalé, um noir tout court. Pérola preciosa de Batatinha, ás do samba agridoce baiano, “Imitação” (“sorrio da tristeza/ se não acerto chorar”) está entre as faixas em que “o vocalize atua como contracanto das melodias”, como desenha Guilherme.

Coletivo Samba Noir, enfim, é uma obra aberta aos ouvidos igualmente destravados. Tem várias leituras, merece incontáveis audições e fornece recônditos prazeres a cada uma delas. É endereçado aos que não se contentam com o óbvio (cada vez mais) ululante em voga na mediania do mercado.

“something is happening here,
but you don't know what it is…”
- Bob Dylan

Flutuando invisível e cintilante por entre aplausos, olhos sorridentes, corações gratificados, surpresos surpreendidos, algum renitente blasé, reverentes colegas, pára-quedistas felizes e outras variantes multiformes de público, lá estava, presente e nítido: um ponto de interrogação. O que se dera ali?

Como sentir familiaridade no inesperado? Beleza na concreta abstração? Novidade no mapeado? O máximo nos mínimos? Uma ofuscante e fresca luminosidade vinda da sombra, do que veio de antes? Como foi possível ser possível o que parecia ser possível, mas raramente é? Como a descoberta e a aventura caminhando na segurança do traçado? E quantas outras perguntas podem caber nesta interrogação?

Que permaneçam suspensas no ar como fumaça, como nuvem, como som, como poética imprecisa e certeira, as questões, em seu gesto de arremesso, sem certeza de destino.

É neste território difuso que a potência vital, o conhecimento, a técnica, a construção, a estratégia, a história, se abraçam com paixão à paixão, ao acaso, ao risco, ao instante presente, este, rumo ao próximo passo. Prosseguir viagem é perguntar.

O Samba Noir distribuiu generoso encanto em suas perguntas. Sem demandar respostas, propôs enigmas para os quais não tem a solução, e traçou um brilhante e precioso rastro na noite. E a noite acolheu seus mistérios.

clique na foto para ampliar