Nina Becker

discografia

Azul

Azul (2010)

Vermelho

Vermelho (2010)

Gambito Budapeste

Gambito Budapeste (2012)

Minha Dolores

Minha Dolores (2014)

Muito prazer, Nina

Da janela, o mar faz par com os prédios erguidos ao redor. Não é um horizonte arredondado, mas um retângulo alto, amparado pelos edifícios em torno dele. O mar, içado como um edifício. De sua casa, Nina Becker assiste às variações todos os dias, o tom, as ondas, a textura. Sempre o mesmo mar, e ainda assim tão diferente.

O mar está na capa de Azul, disco que Nina lançou em 2010, junto com Vermelho. Os álbuns trazem poucos elementos, músicas cruas. O que sobressai é uma voz límpida, praticamente sussurrada no ouvido, um timbre claro e suave. Como se fôssemos íntimos de Nina, como se estivéssemos ouvindo aquelas canções sem mais ninguém em volta, numa longa tarde de domingo. É como ouvir um segredo que não deve ser espalhado aos brados por aí.

Essa proximidade, o ambiente caseiro, aparece também em Gambito Budapeste, que Nina lançou em 2012 em parceria com Marcelo Callado. O disco do casal, inteiro gravado em casa, traz a mesma atmosfera familiar, costurada por melodias cantadas em nananãs e lalalás. A mesma intimidade e doçura. Um disco que fala em saudade, tucanos na varanda.

As influências de Nina são muitas, incorporadas com naturalidade. Dolores Duran, Gal, Rita Lee, Gil, Caetano, Carmen Miranda, rock and roll, bossa nova, samba-canção... Tudo aparece em sua voz, é coisa sua. Mas Nina não é múltipla só nas referências, é também nas atividades.

Começou bem cedo: se apresentou pela primeira vez num sarau no colégio CAp, aos 13 anos. A timidez era tanta que cantou de costas. Aos 19, já aluna da PUC, entoou o tema do filme Cinderela na concha acústica da universidade, acompanhada pelo poeta Ericson Pires, barbudo, com bota de exército e tutu de bailarina.

Apesar de as apresentações se intensificarem cada vez mais, Nina até hoje não se acostuma com o palco. Diz que o jogo nunca está ganho. Toda vez é a primeira

No entanto, aos poucos foi preciso se acostumar: interrompeu o curso de design para cantar como backing vocal do Zeca Pagodinho. Viajou o país por seis meses com ele, apesar de a aparência sugerir o contrário – embora “branquela e pirralha”, em suas palavras, tomou gosto pelo samba ainda menina, por influência do marido de sua mãe, o maestro Roberto Gnattali.

Antes de pisar de vez nos palcos, Nina fez um desvio de quase 10 anos para os sets de filmagens. Um dos primeiros trabalhos como assistente do cenógrafo e diretor Gringo Cardia foi no clipe "Manguetown", da Nação Zumbi. Rapidamente passou a fazer a produção de objetos e a assinar a direção de arte em outras produtoras, tendo colaborado para vários filmes brasileiros – como por exemplo “Eu, tu, eles”, de Andrucha Waddington, e "Abril despedaçado", de Walter Salles Jr. – e para os clipes de "Deixa a vida me levar", de Zeca Pagodinho, e "Amor, I love you", da Marisa Monte, entre outros.

Em 2002, depois de um show da Orquestra Imperial, se convidou a integrar a banda. Foi aceita, justamente por ser uma não-cantora. Por três anos, levou a vida dupla de cinema e apresentações do grupo, até que percebeu que era impossível levar o ritmo adiante. Optou por deixar as filmagens de lado e ser, pelo menos na maior parte do tempo, uma cantora-não-cantora.

Nina foi também estilista. No início, desenhava e modelava, fazia roupas sob medida. De súbito, com o sucesso da grife homônima, formou uma equipe e começou a vender em atacado. Gostava de combinar o lançamento de coleções com o lançamento de singles: surgiram, assim, Volte sempre, em 2005, e Super luxo, em 2006. Desfilou no Fashion Rio em 2006, no Teatro Dulcina, e cantou com sua banda a trilha sonora da coleção durante – o que se tornou – o espetáculo. No ano seguinte, em 2007, sofreu uma fortíssima crise de hérnia de disco.

Em casa, se esparramava no tapete da sala e acompanhava todas as novelas, sem forças para se levantar. Incentivada pelo produtor Carlos Eduardo Miranda, começou a frequentar assiduamente a ponte aérea para gravar suas canções em São Paulo. O resultado desse tempo de repouso e de gravação, indo e vindo de São Paulo, só se revelaria em 2010, na forma de dois discos: Azul e Vermelho. No período de recuperação, fechou o ateliê e buscou remédio no canto.

Integrou o projeto 3 na Massa, um grupo formado por integrantes da Nação Zumbi e do produtor Rica Amabis. Gravou a música "O objeto", tendo idealizado e dirigido o clipe da faixa, uma elaborada produção em stop motion, em que retomou seu gosto pelo cinema. Ainda sem ter lançado seu primeiro álbum solo, recebeu em 2009 o prestigioso prêmio APCA (Associação Paulistas de Críticos de Arte) de melhor cantora.

O sucesso dos discos-gêmeos se confirmou com a indicação ao Prêmio da Música Brasileira 2011 na categoria melhor cantora Pop e fez com que os dois anos seguintes fossem atribulados, com shows no Brasil todo. Finalmente, passou a viver de música, tanto na Orquestra Imperial quanto na carreira solo. Entre muitos convites, participou do DVD Arnaldo Antunes ao Vivo, do programa Grêmio recreativo MTV, com Caetano Veloso, do Compacto Petrobras, com Moraes Moreira, e da série de TV Cantoras do Brasil, homenageando Dolores Duran, sua intérprete favorita. Deixou de ser cantora-não-cantora para enfim ser cantora em tempo integral.

Difícil terminar a listagem de coisas que Nina fez, que não se restringem à música. Seus mil e um talentos a levaram desde a criação de uma estampa da marca de sapatos paulista Luiza Perea à direção do seu próprio clipe da faixa "Toc Toc", de autoria de Rubinho Jacobina.

Em casa, canta o tempo todo. Troca melodias com Marcelo. Inventa canções para dar banho em Cora, a filha dos dois. Quando não dá tempo de anotar as letras no caderno, liga para casa, deixa a secretária eletrônica gravar os rascunhos de canções.

Faz da rotina ou da falta de rotina motes para criar. O mar continua na janela, às vezes suave, tranquilo. Outras vezes encrespado, com ondas altas. Um mar royal, marinho, cinza, azul claro, turquesa, nunca o mesmo e sempre o mesmo. Um pouco como Nina, que é tantas. Na faixa “Lá e cá”, de Vermelho, sussurra: “é que nunca cansei de sentir e de lembrar dessas ondas que caminham no ar”.

Alice Sant’Anna

fotos

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Singles

EP Superluxo

EP Superluxo (2010)

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Single Volte Sempre (2010)

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